Antes quebrar que torcer: o campo que se alargou em cinco dias

A época 1950/51 marcou a primeira presença do Clube Oriental de Lisboa no Campeonato Nacional da I Divisão, quatro anos depois da fusão que o viu nascer. A estreia do emblema marvilense na principal competição de clubes portuguesa ficou para a história, não só pela quinta posição alcançada, a sua melhor prestação de sempre, mas também por um célebre episódio que uniu toda a comunidade orientalista.

O mês de Novembro estava a chegar ao fim, e o Oriental já começava a dar nas vistas, sobretudo quando jogavam em casa. Num Campo Engenheiro Carlos Salema de pequenas dimensões, uma equipa anfitriã aguerrida e dedicada colocava sérias dificuldades a qualquer forasteiro que se apresentasse em Marvila. É então que o Conselho Técnico da Federação Portuguesa de Futebol decide realizar uma vistoria ao campo do Oriental. Os motivos para tal acção por parte da entidade reguladora do futebol nacional, a meio da temporada, não foram conhecidos.

Verificou-se então que o terreno de jogo (96×56) não cumpria as dimensões mínimas exigidas pelo regulamento do Campeonato Nacional da I Divisão (100×64). Tendo em conta a altura da vistoria, a direcção do Oriental pediu autorização para utilizar o seu campo até ao final da época. A FPF recusou a solicitação, colocando em cima da mesa a hipótese de disputar toda a segunda volta em reduto emprestado. Face ao sucedido, o presidente do clube Penetra Rodrigues convocou uma Reunião Magna no dia 1 de Dezembro, para dar conta da resposta negativa da FPF, e encontrar uma solução para o problema. Decidiu-se avançar com as obras de alargamento, e vários sócios ofereceram de imediato os seus préstimos. Tudo teria de estar pronto a tempo da recepção à Académica, a 17 de Dezembro.

«O Oriental irá dar mais uma provas da sua vitalidade! E no dia 17 jogará no seu campo», garantiu o presidente Jaime Penetra Rodrigues, no fecho da Reunião.

As obras tiveram início no dia 9, e dezenas de trabalhadores reuniram-se para tornar confirmar a profecia do presidente. «Ontem estiveram a trabalhar uns 100 homens pagos. E outros 100, pelo menos, que não receberam um centavo. Eram tantos, tantos, que chegaram a embaraçar o seguimento da obra» (Penetra Rodrigues, Mundo Desportivo (13/12/1950).

O Mundo Desportivo descrevia os orientalistas como “gente de antes quebrar que torcer”, enquanto dava a conhecer um dos episódios ocorridos no decurso das obras de alargamento do Campo Engenheiro Carlos Salema:

«Presenciámos, então, uma cena a um tempo simples e comovedora. Um rapaz de fato de ganga, muito limpo, dizia para João Valadares:

 – Mas, ó sr. João…deixe-me fazer alguma coisa. Então eu pedi licença na oficina para vir para aqui e não me deixam trabalhar!

– Bem, vamos lá a ver o que pode arranjar-se.

Um sorriso de satisfação iluminou o rosto daquele rapaz humilde, orientalista cem por cento» (Mundo Desportivo, 13/12/1950).

Nas vésperas da recepção à Académica, uma nova vistoria da FPF aprovou as dimensões do aperfeiçoado campo, que passou a medir 101 x 64. Uma recompensa merecida pelos cinco dias de trabalho intensivo, apenas possíveis graças ao espírito resiliente da família orientalista. Era esta a vitalidade a que se referia Penetra Rodrigues. Quanto ao jogo, o emblema grená venceu os estudantes por 3-1, abrindo as portas para uma segunda volta fantástica, coroada com um inédito quinto posto na tabela classificativa, o melhor registo de sempre.

Mais tarde, em 1977, quando a bancada do Campo Engenheiro Carlos Salema ruiu, assistiu-se a um fenómeno muito parecido, por parte dos adeptos orientalistas. Mas isso ficará para outro episódio.

Moisés, o ‘Eusébio do Andebol Português’

Recorte retirado do livro ‘Clube Oriental de Lisboa: Histórias do nosso clube’ (2013), de Víctor Figueiredo

A história do Clube Oriental de Lisboa não se resume apenas ao futebol. Exemplo disso mesmo é o andebol, modalidade herdada do Marvilense Futebol Clube, um dos emblemas da fusão de 1946, e que já competia oficialmente desde 1937. Tanto na extinta variante de 11 jogadores, como na de 7, as equipas orientalistas deram-nos a conhecer figuras de enorme valor. Uma das mais proeminentes, Moisés António Martins dos Santos (ou simplesmente Moisés), chegou a ser apelidada de ‘Eusébio do Andebol Português’, pelo jornalista desportivo António Freitas, na década de 1960. Esta honrosa comparação justificou a recolha de novo fragmento da história oral do emblema marvilense, junto do próprio Moisés.

«Nasci em Vale Formoso, na Covilhã, mas vim trabalhar com 14 anos para Braço de Prata. Na altura o Marques fazia parte da equipa do Oriental, e começou a desafiar-me a experimentar. Acabou por arrastar-me para o Oriental. Ele até tem a mania de dizer que ele é que me trouxe. Depois foi a minha vez a arrastar a minha turma da Escola Afonso Domingues para o Oriental, onde fomos campeões de juniores»

«Não gostava muito de futebol, e o andebol foi por mero acaso. Ainda joguei futebol, mas tenho um problema: tenho medo de cabecear. Joguei várias vezes, mas a bola não podia bater na cabeça»

«Era melhor jogador de andebol de 7 do que de 11. Era muito magrinho, na altura até me chamavam ‘caveira luminosa’. Em andebol de 11, quando chovia, tinha algumas dificuldades. Não tinha grande aderência ao piso, nós jogávamos com botas»

«Quando jogávamos andebol de 11, enchíamos o campo com 7 mil pessoas. Quando houve um jogo decisivo com o Sporting CP, onde ganhámos 6-4, eu marquei quatro golos, e acabou tudo ao murro a oito minutos do fim, estavam 7 mil pessoas. Púnhamos mais gente ali no campo no andebol de 11, do que no futebol, curiosamente. Depois quando passámos a jogar mais andebol de 7, enchíamos o campo de Xabregas»

«Na década de 1970, com o aparecimento dos Jogos de Lisboa, passei a ser um dos treinadores da Câmara Municipal de Lisboa. Então cheguei a treinar sozinho mais de 100 miúdos. A Câmara financiava, e nós criámos uma escola de miúdos entre os 6 e os 18 anos. Nessa altura, também treinava todas as equipas do Oriental, desde os mais novos às primeiras categorias. Participávamos nos Jogos de Lisboa, e depois os mesmos miúdos participavam no Campeonato de Lisboa. Este trabalho nas camadas jovens deu ao Oriental títulos importantes»

«O Clube Oriental de Lisboa não só tem história no futebol como também é dono de um grande historial no andebol. Isso nunca poderá ser ignorado»

Quando o Carrapito fugiu pela Marinha Grande

Equipa do Oriental no início da década de 1970, com Carrapito em destaque (Fonte: Clube Oriental de Lisboa)
Debrucemo-nos sobre uma das estórias mais ouvidas entre orientalistas. Aquela vez em que o futebolista Carrapito viu-se obrigado a fugir pela Marinha Grande, perseguido por furiosos adeptos adversários. Um cenário difícil de imaginar para quem não esteve lá, mas uma memória vívida e inesquecível para todos os que presenciaram o sucedido.
Tudo aconteceu a 4 de Fevereiro de 1973. Iria disputar-se nessa tarde a 19ª jornada da Segunda Divisão, competição onde quatro emblemas partilhavam a liderança: Portimonense, Olhanense, Marinhense e Oriental. O estado da tabela classificativa oferecia assim uma tensão adicional ao confronto entre estes dois últimos. O resultado foi um episódio inolvidável da história do Clube Oriental de Lisboa, contada aqui em detalhe pelo então presidente, António Nobre Alves.

«Sobre a história do Carrapito na Marinha Grande…Nós levámos não sei quantos autocarros atrás, porque o Marinhense também estava na frente. Aquilo foi o ‘fim da macacada’ com tanta gente. Verdade é que o Carrapito é substituído, e passa em frente à bancada dos sócios. Não sei o que é que ele disse, ou o que é que ele fez. Alguns sócios do Marinhense puseram-se a correr atrás do Carrapito, e eu tive de ir ver o que é que se passava, e deixei o jogo. Já estava na esquadra, devidamente equipado, porque quando saiu, tentou ir para a cabine, mas chegou lá e a cabine estava fechada. Teve que saltar o muro. Eu não sei como é que ele fez aquilo.

Chegámos lá, e o chefe da esquadra dizia que era impróprio andar pela Marinha Grande equipado. Entretanto, chegou a informação ao campo de que o Carrapito estava preso, o presidente na esquadra, e foi mesmo o ‘fim da macacada’, com aquela gente toda lá. O chefe da esquadra disse-me: “Isto está mau”. Eu disse-lhe: “O senhor é que sabe. Tem aí um jogador que não fez mal a ninguém, quer prendê-lo porquê? Deixe o rapaz vir embora comigo”. “Não, tem de pagar a multa primeiro”. Depois perguntou-me: “Acha que os sócios do Oriental são capazes de tomar alguma atitude?”. Eu respondi: “Não acho, eu tenho a certeza que tomam. Olhe, quer saber mais? Peça reforços!”. “Então e se nós arranjarmos aqui uma multazinha?”. “Está bem, eu estou de acordo. Mande a multa lá para o Oriental”. Quem pagou fui eu. Esse foi um caso de um jogador a fugir por dentro de uma cidade, devidamente equipado. Um caso muito bonito.»

Curiosamente, e apesar dos inúmeros testemunhos orais mais ou menos semelhantes que comprovam a veracidade deste episódio, as análises ao jogo produzidas pelos jornais desportivos da altura passaram ao lado do acontecimento. Tanto o Record como o Mundo Desportivo ignoraram totalmente o facto insólito, ao passo que A Bola, através do seu jornalista Severiano Correia, optou por aligeirar os conflitos verificados. Eis o excerto da sua crónica em que se refere ao clima de tensão vivido no campo do Marinhense:

«O ambiente, pois, que rodeou a partida foi o mais emocional que possa supor-se. Até porque a ânsia dos pontos contundiu, de certo modo, com os nervos dos jogadores e do público, chegando mesmo, por via disso a registarem-se, quer no rectângulo quer fora dele, algumas cenas que, felizmente, por não terem maior dimensão, não ensombraram uma excelente jornada de futebol competitivo, que, ao fim e ao cabo, veio a terminar da melhor maneira, para prestígio da modalidade.»

Mais adiante, o mesmo Severiano Correia dedica umas palavras ao próprio Carrapito, sem nunca mencionar a sua fuga épica:

«Já Carrapito, que também tem talhe de jogador nato, embora muito incisivo, perde-se um pouco quando entra em picardias com os adversários. Daí a sua substituição ter sido feita com muita oportunidade.»

Os testemunhos de Rogério ‘Pipi’, José Roçado e Mário Luz

Na cerimónia oficial do 70º aniversário do Clube Oriental de Lisboa, três lendas vivas do emblema grená foram devidamente homenageadas. Rogério ‘Pipi’, jogador que deu os primeiros passos ainda no Chelas, um dos clubes envolvidos na fusão de 1946, e que mais tarde terminou a carreira em Marvila; José Roçado, um dos titulares na partida inaugural da história do Oriental, e primeiro número 7 do futebol nacional; Mário Luz, futebolista da década de 1950, que fez parte do período glorioso do clube, pontuado pelas afamadas subidas e descidas entre a Primeira e a Segunda Divisão.
Este justo reconhecimento serviu de pretexto ideal para publicar os seguintes pedaços de história oral que o trio de futebolistas acima referido aceitou partilhar.

Rogério ‘Pipi’

«Comecei ali porque o meu pai foi fundador do Chelas e ia acabar ali no bairro. Disse ao Benfica “não tenham medo que eu não vou para o Sporting, nem para o Belenenses, só para o Oriental”»

«Quando fui para o Oriental, disse logo que não queria dinheiro nenhum. Quando me ofereciam os prémios de jogo, eu pegava neles e oferecia-os ao Morais e ao Capelo. Dois grandes defesas, melhores do que aqueles que jogavam no Sporting, Benfica ou Belenenses. Tinham uma arte, uma fogosidade…eram extraordinários e dedicados ao clube. Os adversários viam-se lixados com eles»

«Eu achei bem que fizessem a fusão, para formarem um clube grande. Ao princípio, houve muita gente que não gostou, mas depois com a continuação e a entrada na Primeira Divisão, acabaram por aceitar. Quanto a mim, aceitei logo. Era algo que tinha de suceder»

«A minha chegada ao Oriental foi uma alegria. Como já conhecia os jogadores, e eles sabiam que eu era do bairro, alguns deles até tinham jogado comigo, era uma família»

(sobre a subida à Primeira Divisão em 1955/56) «Ganhámos ao Coruche 3-1 e eu marquei dois golos…O Poço do Bispo caiu lá em peso em cima dos coruchenses»

Rogério ‘Pipi’ cumprimenta dois antigos colegas do SL Benfica, Bastos e Jacinto (Fonte: serbenfiquista.com)

José Roçado

«Antes da fusão, os Fósforos iam na frente da Segunda Divisão. Faltavam dois jogos, e eu e o Leitão fomos chamados dos juniores para jogar na primeira categoria. Fomos campeões, e tivemos de jogar contra o último da Primeira Divisão, o Estoril-Praia. O treinador Gustavo Teixeira disse-me “Vais jogar a ponta-direita, mas tens de fazer uma coisa. Quando levarmos a bola ao centro, e o França colocar na esquerda ou na direita, mandas logo um pontapé no primeiro gajo que te estiver a tapar”. Assim ele disse, assim eu fiz, tinha 19 anos. Meti-me com o Fragateiro, dei-lhe um toque, ele virou-se para trás e mandou-me um murro. Até fiquei branco»

«Fiz o primeiro jogo da história do Oriental, contra as “torres de Belém”, que tinham 1,90m, contra os nossos 1,70m. O guarda-redes era o Capela, e as ‘torres’ Vasco, Feliciano e Serafim eram todos jogadores com 90kg. Eu era muito veloz. Perdemos 2-1 contra o Belenenses. O defesa que me tapava era o Serafim, e eu ajoelhei-o três vezes. Ele nunca se esqueceu. Quando me encontrava na rua, dizia-me sempre “oh meu gaiato, olha que me ajoelhaste três vezes”. E eles eram da selecção nacional»

«Jogámos com o Atlético, e depois veio o problema da tropa. O meu patrão era amigo lá dos generais e acabei motorista. Quando regressei, fui trabalhar para a Sociedade Nacional dos Sabões. O meu patrão disse: “escolhe, ou o Oriental ou os Sabões”. Escolhi a fábrica. Por vezes, fazia jogos pelas reservas, mas tinha de dar um nome falso»

«Ali naquele sítio apareciam sempre rapazes com jeito. No Oriental tivemos equipas de juniores que batiam o pé aos grandes, e íamos aproveitando esses jogadores»

José Roçado a ser homenageado nas comemorações do 70º aniversário do Clube Oriental de Lisboa (Fonte: CML)

Mário Luz

«Recordo-me de um jogo de preparação com o FC Porto, ainda no Estádio das Antas, em que há um livre a favor do Oriental e é o Leitão quem marca. A bola perfurou a rede, e o Barrigana não se esqueceu de pôr a bola na marca do pontapé de baliza. Não foi golo. Contestámos, porque a bola tinha rompido a rede, mas não valeu a pena, na medida em que o árbitro não entendeu assim»

«No Oriental, o lema era “não se compra nem se vende”. Não havia outra solução senão permanecer, e por vezes tínhamos de aguentar»

«O Oriental para mim foi sempre, e continua a ser um clube de elite. Não penso noutro clube. Podem falar-me do Sporting, Benfica ou FC Porto, mas eu não ligo a nada disso. Sempre segui os jogos do Oriental. Ainda hoje, compro o jornal à segunda-feira, ou ligo para a sede, para saber o resultado do Oriental»

«No campo Engenheiro Carlos Salema, todos tinham de cair. Enfrentávamos o jogo com uma audácia fantástica. O nosso querer superava tudo. A partir daí, ganhávamos os jogos todos»

«Na altura havia mais dedicação. Sentíamos realmente a camisola. Havia entre os jogadores uma força diabólica capaz de superar tudo. Agora dá-me a ideia que é uma coisa mais fingida, ao passo que na altura havia uma garra e uma mística especial»

Mário Luz em dividida com o benfiquista Coluna, no Campo Engenheiro Carlos Salema (Fonte: oriental.pt)

Os primeiros a numerar as camisolas

O poder da criação transforma a rotina e confere-lhe valor. O Homem sonha e a tão desejada obra nasce. Nuno Barracas

O poder da criação transforma a rotina e confere-lhe valor. O Homem sonha e a tão desejada obra nasce.
Nuno Barracas

«O Oriental, na apresentação contra o Belenenses, vai causar surpresa a quantos assistam à partida das Salésias. Aguarde os resultados da mesma e verá se ela não constituirá caso inédito nos nossos campos de futebol; se não irá revolucionar o meio desportivo do País, especialmente o que se dedica ao futebol.»

Foi assim que Rui de Seixas se dirigiu aos jornalistas do Mundo Desportivo, em vésperas da estreia oficial do Clube Oriental de Lisboa nos campos de futebol. O membro da então provisória Comissão Administrativa, e mais tarde primeiro presidente eleito, deixava todos de água na boca com as suas palavras. Mas que surpresa era esta? Passara pouco mais de um mês desde a fusão a leste entre Chelas Futebol Clube, Marvilense Futebol Clube e Grupo Desportivo “Os Fósforos”, e a ambição dos responsáveis do novíssimo Oriental era palpável.

A grande revelação surgiu no dia 15 de Setembro de 1946, no arranque da abertura do 41º Campeonato Regional de Lisboa. Os jogadores orientalistas apresentaram-se numerados, algo inédito no futebol português até então. Era esta a inovação prometida por Rui de Seixas, que ainda hoje enche os seus adeptos de orgulho.

Ao contrário do que possa parecer, as camisolas pioneiras do Oriental não foram grenás. O mercado nacional de malhas não oferecia a cor pretendida, alusiva à prosperidade do comércio do vinho de então, encabeçada pelos armazéns da Sociedade Comercial Abel Pereira da Fonseca (conhecida popularmente por “catedral do vinho”) e de José Domingos Barreiro. O clube viu-se assim obrigado a encomendar as malhas grenás de Barcelona. E como o material não chegou a tempo do primeiro jogo, a solução de recurso passou por comprar camisolas brancas e tingi-las de carmesim.

Quanto ao jogo no Campo das Salésias contra o Clube de Futebol “Os Belenenses”, o entusiasmo demonstrado pelos novatos marvilenses colocou sérias dificuldades aos campeões em título, mas não impediu a derrota por 2-1. França apontou o primeiro golo da vida do Oriental. Mais do que a estreia oficial do clube nos campos de futebol, para a história ficou a inovação implementada e relevada por todas as publicações desportivas. Com a numeração das camisolas dos jogadores, espectadores, jornalistas e árbitros conseguiam agora identificar melhor do que nunca as individualidades que pisavam o relvado (ou o pelado). A numeração dos futebolistas já era obrigatória desde 1939 em provas britânicas, e a sua implementação generalizada no resto da Europa verificou-se sobretudo durante os anos 50. Em Portugal, foram os orientalistas a assumir a dianteira.

«Há, também, que louvar a iniciativa do Oriental numerando e apresentando os jogadores ao público – o que entre nós constituiu inovação. Há muitas vantagens no facto – para os espectadores, para a crítica e para o árbitro. Permite referenciar muito mais facilmente os jogadores. O método deveria ser adoptado pelos outros clubes.»

Alberto Freitas, jornalista do Mundo Desportivo (18/09/1946)

«Os jogadores visitantes, como já se sabia, apresentaram-se com as camisolas numeradas. O facto é de registar nestas colunas por se tratar duma inovação entre as equipas portuguesas cujo benefício o público reconhecerá com o decorrer do tempo e das competições. Mas, precisamente por uma vantagem já ter sido apregoada tantas vezes através da imprensa – a novidade não espantou a assistência. Parecia haver a impressão que «aquilo» já se usava há muito entre nós…»

Valente, jornalista d’A Bola (16/09/1946)

«A decisão do Oriental de numerar os jogadores merece relevo e é digna de ser seguida por todos os clubes.»

Cândido de Oliveira